Relato de Parto do Pai

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De Pai para Pai

Relato do pai sobre o trabalho de parto da companheira e do filho

Olá, meu nome é Bruno Caravelas Gary e meu filho nasceu no décimo dia de dezembro, de 2021, às 15:41h. Tentarei explicar aos pais e demais leitores algumas reflexões que tive durante o dia mais feliz de minha vida.

A gestação da Amanda, minha esposa, foi bonançosa, não tivemos problemas durante todo o período de gestação e as contrações surgiram há um dia do parto, em um dia normal de consulta. Com 39 semanas tudo mudou bem rápido.

As instruções recebidas pelos profissionais e o conhecimento obtido através de pesquisas fizeram a diferença em todo o trabalho de parto e acredito que ao final da leitura isso será claro. Deixe-me iniciar essa jornada do ponto mais assustador: o início.

Fizemos o registo de entrada na maternidade às 12h11 com quatro dedos de dilatação, um ótimo sinal, pois ela optou pelo parto vaginal. No primeiro contato com a maternidade fomos levados a uma sala de triagem, era apresentado pela Amanda dores de contração, desta forma fomos atendido rapidamente por profissionais que fizeram o primeiro atendimento. Não é preciso que a bondade se mostre; mas sim é preciso que se deixe ver, sinto que desde o primeiro momento na maternidade tudo se torna mágico, divino, ou qualquer outro nome que demonstre algo inexplicável, alinhado com a vontade e experiência destes profissionais que nos acalmam e tentam a todo momento mostrar-nos que teremos em um futuro próximo, a dolorosa vontade de passar por tudo novamente.

Tal sentimento que era claro transformou-se em incerteza na sala de pré-parto, as dores apresentadas pela Amanda fizera-me duvidar de tudo aquilo que sempre acreditei, colocando-me em um estado de desespero em cada grito de dor. Neste ponto obtive minha primeira reflexão: O maior erro que um homem pode cometer é supor que uma mulher não tenha força para encarar tal adversidade. Com a ajuda das profissionais, entendi em pouco tempo que era necessário substituir o pavor pelo amparo, o desespero pela contribuição, o terror pela coragem. Me vi em poucos minutos como um apreciador, que sempre ao lado da esposa pude admirar de perto o fenômeno mais atípico de nosso universo: o nascimento de uma vida.

Avançamos em poucos minutos para a sala de parto, e querido leitor, aquela sala poderia ser
chamada, sem empate, de ateliê, pois a arte é uma flor nascida no caminho da nossa vida, e que se desenvolve para suavizá-la. Tal arte explode dentro do pai como um big-bang, dando início não apenas a vida da criança, mas também a própria vida, e explorando cada pedaço do corpo como se nascêssemos juntos. E neste momento, a gravidade, as estrelas, os entrelaçamentos, e tudo o que existe de complexo está sendo vivido pela Amanda, pois a cada contração era possível ouvir um deslumbre dos profissionais dizendo “Força Amanda, agora falta menos uma para o nascimento”, nem mesmo as obras quase divinas de Mozart apresentaram tanta emoção. Naquele momento, eu estive ouvindo uma nova sinfonia, jamais antes ouvida e sentida na qual jamais esquecerei. Recordo-me que o teto, exatamente sobre a Amanda, iluminava-nos com piscas-piscas pouco iluminados, como se estivéssemos em um espetáculo, percebi que de fato estávamos.

Equipe que fez o trabalho de parto

Se eu tiver a honra de que você, querido leitor, receba uma sugestão desde que vos escreve, seria o aconselho de olhar para tal situação como um milagre e interpretar cada movimento, cada contração, cada lagrima, como um presente. Ao ver o recém-nascido indo ao colo da mãe, sentimos também alguns afetos, como exemplo a proteção. Não se previna das inúmeras promessas que fará a si mesmo ao ver o bebê pela primeira vez. Você às cumprirá, pois apenas acertamos um alvo quando a temos no campo de visão.

Uma última reflexão me veio durante a segunda noite de vida do Victor, nosso filho. As inúmeras
tentativas de acalmar a criança alinhada com o sono que estava penetrado em nossa mente, fizeram com que tivéssemos a ajuda de uma profissional em tentar acalma-lo no seguro berçário enquanto dormíamos alguns minutos. A Amanda, coberta pelo cansaço natural de um milagre, não esboçou dúvidas, enquanto eu aceitei a gentil proposta. Em menos de dois minutos após o Victor sair da sala pairou sobre mim uma nuvem de dúvidas: Esse não era o meu dever? Eu não prometi o proteger? Por que eu desisti de tentar acalma-lo, mesmo com extremo sono, se prometi que seria seu satélite? Me vi levantando e indo atrás do Victor, não com medo, mas sim com uma auto afirmação.

Percebi que as profissionais, experientemente estavam ouvindo o choro de meu filho e em seus colos ia aos poucos se acalmando. Tenho o conhecimento de que a criança, com poucas horas, não possui uma visão aguçada, mas pude notar que aqueles lindos olhos negros estavam voltado em minha direção, e como uma flecha que atravessa um escudo, aquele olhar me penetrou, causando lembranças até o presente momento. Basta termos paciência, pois assim que nasce a criança também nascem os pais. Somos hipócritas ao dizer que os primeiros dias são complicados, quando comparado a difícil lição de aprender a viver. Tenham paciência.

Alguns meses depois

Mesmo agora, depois esses últimos meses após o momento mais importante da minha vida, percebo a beleza, a complexidade e a compaixão do nascimento. Sinto que não importa o que aconteça daqui pra frente, aquele momento define não apenas a essência do recém-nascido, mas também o da vida.