
Desde 2003, o mês de setembro foi escolhido como prevenção ao suicídio. O objetivo foi chamar a atenção da opinião pública para a importância de se falar sobre o assunto. A depressão está relacionada como uma das suas muitas causas.
As alterações hormonais, a mudança do corpo durante os nove meses de gestação, as cobranças em relação ao papel de mãe podem desencadear uma série de distúrbios psicológicos na mulher, que se não observados a tempo podem fomentar problemas graves. Dentre eles, o mais comum é a depressão, que pode começar um pouco antes do puerpério ou durante as três primeiras semanas após o parto. Também conhecida como puerpério, essa fase dura entre 45 e 60 dias.
De acordo com dados da Organização Mundial da Saúde (OMS), a depressão pós-parto chega a afetar até 15% das mulheres; em casos em que já tenham tido episódios de depressão anteriores, o risco pode chegar a 50%.
A partir do 4º dia após o parto começa a alteração transitória e leve do humor, conhecida como baby blues. Ela é considerada normal e pode durar até 40 dias. Quando a melancolia proveniente desse período começa por suscitar sintomas mais sérios, como a depressão, o sinal de alerta deve ser ligado.

Para a psicóloga Cintia Liana Reis de Silva, mãe de duas meninas (de 9 anos e 5 anos), é muito delicado analisar a depressão na gestação porque nesse período há uma série de oscilações hormonais, que mudam naturalmente o comportamento da mulher. Por isso, de acordo com a psicóloga, é importante analisar os sintomas em conjunto e não isoladamente: “Para se diagnosticar uma depressão é preciso identificar um conjunto de sintomas que indiquem um quadro depressivo. Na gestação é muito delicado dar um diagnóstico de depressão porque às intempéries hormonais femininas, nesse período, são muito comuns; os níveis de serotonina diminuem consideravelmente”, explica.
Segundo a psicoterapeuta, os sintomas mais evidentes e que não podem ser analisados separadamente, são os seguintes:
• Tristeza profunda
• Perda de interesse ou de prazer nas atividades habituais, por causa das alterações hormonais;
• Mudanças de perspectivas de vida e de pensamentos relacionados a vida ou a existência dela;
• Perda de peso e apetite;
• Fadiga, perda de energia;
• Sentimento de culpa;
• Diminuição da concentração, agitação psicomotora;
• Pensamento sobre morte;
• Inquietação, irritabilidade, aceleração do pensamento;
• Comportamentos compulsivos;
• Crises de pânico, dor no peito, tontura.
Quando a depressão na gestação não é tratada pode se transformar num agravante para a depressão pós-parto (DPP). Além dos sintomas descritos por Reis, persistem a raiva e a falta de interesse pela criança, pensamentos de morte, planos e tentativas de suicídio, delírios, alucinações, confusão mental e surtos psicóticos.
A DPP prejudica o vínculo da mãe com o bebê, ao provocar insegurança, distúrbio emocional, problemas cognitivos, de comunicação e atenção. A mulher deprimida não tem estabilidade emocional suficiente para interagir adequadamente com seu bebê, que sente o distanciamento emocional da mãe; quando o bebê sorri e a mãe não retribui, ele passa a diminuir as expressões faciais e as demonstrações de afeto. A comunicação entre eles fica comprometida.

Principais Fatores da Depressão Gestacional e Pós-parto
• Autoestima baixa;
• Instabilidade financeira;
• Problemas conjugais,
• Pouco suporte oferecido pelo parceiro ou por outras pessoas que mantêm contato com a gestante, que precisa lidar com questões relacionadas à vida social, ao trabalho, aos afazeres domésticos, aos cuidados com os outros filhos;
• Gravidez não planejada;
• Dificuldade em amamentar;
• Problemas no parto.
Quando Procurar Ajuda
Segundo a especialista em psicologia conjugal e familiar pela faculdade Ruy Barbosa, Cintia Liana Reis de Silva, quando a mulher é acometida por sentimentos e sensações que interferem na vivência da gravidez e no cotidiano dela de forma negativa, chegou a hora de pedir ajuda. “Quando a dúvida e o medo ganharem uma dimensão maior do que o prazer e a felicidade do bebê; nesse momento, o apoio psicológico é fundamental, para que ela não entre em desespero e não coloque nem a vida dela e nem a da criança em risco”, completa.
Para Cintia Liana, existe na gravidez uma abertura das feridas relacionadas à genitorialidade. No momento em que a gestante começa a se ver como mãe reabrem-se as feridas intergeracionais ligadas a ela e a sua genitora: “São memórias que se reavivam, medos que emergem relacionados à maternidade, que na verdade surgem a partir da qualidade da relação e da vivência dela como filha”. Esse conceito da psicoterapia muito usado nas Constelações Familiares, uma das especialidades de Silva, tem sido muito usado no tratamento da depressão.
Muitos questionamentos povoam a mente da mulher em depressão. Os mais presentes, a partir da experiência clínica da especialista, têm relação com a sensação de incapacidade de ser mãe: “Como posso dar um amor que eu não conheço e nunca recebi? Que amor é esse? Será que é suficiente para a criança? As perguntas estão sempre relacionadas à própria capacidade da mulher, não só de amar, mas de se dar conta da responsabilidade que é ter um filho”, conclui.
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